Segundo Patanjali, o objetivo do Yoga é conseguir o estado de Citta Vrtti Nirodhah (Sutra I-2), ou seja, a inibição das modificações da mente. O mesmo refere 8 passos que servem de veículo para atingir esse estado de domínio mental. Yama (auto-restrições) e Niyama (observâncias) são os dois primeiros passos descritos (Sutra II-29). Estas duas práticas são a base do Yoga, sem as quais não se pode avançar para as seguintes.

Ahimsa é o primeiro Yama e na sua etimologia significa não-violência. De acordo com Patanjali, nos Yoga Sutra, este princípio compreende o respeito por todas as criaturas vivas, não matar, não causar sofrimento aos outros voluntariamente, seja através da dor, da palavra, pensamento ou ação. É caracterizado por um estado de inofensividade, que não se deve confundir com comodismo ou covardia, mas sim pela busca de um estado amoroso.

Ahimsa é a compreensão de que qualquer ato de violência, gera violência e causa agitação mental, afastando-nos dos objetivos primordiais do Yoga. Concomitantemente, na sua essência, pressupõe a mesma não-violência, não só para com os outros, mas também relativamente a si próprio. Este conceito é dotado de uma visão flexível, ampla e consciente, pois cada pessoa, situação ou circunstância é única. Inclusive em contextos iguais, se cada um de nós percecionar a mesma conjuntura, tem uma visão diferente devido às características e filtros (de ordem genética, neurológica, ambiental, cultural, experiência de vida, aprendizagem etc.) que condicionam a interpretação de cada ser. Logo, cada ser terá um discernimento próprio.

Por isso, Ahimsa é ver com os olhos do Amor e da Compaixão.

Numa prática de Yoga, tanto para um professor como para os praticantes, é de importância primordial a consciência de Ahimsa para que se alcance uma prática consciente, disciplinada e vigilante, mantendo a postura física e mental correta, de modo a realizar a mesma de forma estável e confortável, sem esforço e sem exceder os limites de cada um.

O desafio é favorável e pode promover benefícios ser for levado a cabo de modo consciente. A aplicação da não-violência pode ser aprimorada através da disciplina e vigilância sobre a mente, as emoções, os pensamentos e atos, tentando ajustar os mesmos de acordo com este conceito, ajudando, deste modo, a ter uma visão interior mais correta e adaptada relativamente a qualquer situação, através de Buddhi (intelecto esclarecido). Ao interiorizar este princípio ficamos mais próximos de percorrer o caminho de Unidade do Yoga, da União do Eu com o Todo, em que cada um de nós (Atman) é uma gota de um mesmo oceano (Brahman).

Ahimsa reside no nosso coração e luz interior, no brilho de liberdade de cada olhar, quebrando as barreiras do ego, despertando a nossa essência enquanto Seres Humanos e a nossa visão para o que a todos nos une. Na própria singularidade reside a nossa semelhança e plenitude, onde nos completamos como um Todo. A prática da não-violência leva-nos a agir com espírito de fraternidade uns com os outros, estando também em concordância com a aceitação e inclusão que acontecem em ações que abraçam a diversidade, vendo cada ser como o seu semelhante, sem distinções, com um pensamento coletivo e ecológico, com empatia e compaixão.

Deste modo, Ahimsa, o princípio da Não-Violência do Yoga, vai ao encontro da Declaração Universal dos Direitos Humanos, a qual urge no atual momento da sociedade: – “Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotadas de razão e consciência e devem agir em relação umas às outras com espírito de fraternidade.” (Artigo I)

Ao longo da história têm surgido alguns líderes espirituais e também políticos ativistas imbuídos por este princípio, numa luta árdua pelos direitos humanos, pela expansão da consciência humanitária, liberdade, paz, igualdade, contra a opressão e qualquer forma de violência, utilizando como veículos o pensamento, a ação e o próprio exemplo de vida, tendo deixado um enorme legado à humanidade, marcando a diferença e modificando o mundo de forma positiva conferindo-lhe mais luz.

Não podemos esquecer as suas lutas pacifistas e memória. Citando alguns dos mais reconhecidos: – Sidarta Gautama (Buda 563 a.C.-483 a.C.), Jesus de Nazaré (7/2 a.C. – 30/33 d.C.), Mahatma Gandhi (1869–1948), Nelson Mandela (1918-2013), Martin Luther King Jr.(1929–1968), Thich Nhat Hahn, Dalai-lama (Tenzin Gyatso) etc. Bem como, todos aqueles que foram e ainda são igualmente importantes, mas permanecem no anonimato.

Também no nosso país, a 25 de Abril de 1974, se fez história com a Revolução dos Cravos, de forma única e ímpar sem recurso à violência, levando à queda do regime ditatorial e opressor do Estado Novo, iniciando o processo que culminou na implantação do regime democrático, com a entrada em vigor da nova Constituição a 25 de abril de 1976, sendo comemorado como o Dia da Liberdade. Este evento foi liderado por um movimento militar, o Movimento das Forças Armadas (MFA) e levado a cabo pelos Capitães de Abril.

O Yoga, como Filosofia em si, e Ahimsa, como o primeiro Yama, comportam em si uma profundidade, abrangência e pluralidade amplas, tornando-se universais e transversais a todos os tempos e todas as culturas.

O bem do próximo é o bem de todos, e o bem de todos é o bem de cada ser. Que não esqueçamos tudo aquilo que já construímos, mantendo a vigilância e a atenção pois a não-violência, a paz e a liberdade são lutas conscientes e pacíficas diárias. Unidos, em cooperação e compaixão, prevalecendo sobre a competição, a desagregação e a opressão, que por vezes assola o nosso quotidiano, evoluímos e aprendemos sempre mais e melhor. Estamos todos conectados, vivemos na mesma “casa” e viajamos no mesmo “barco”.

A não-violência, a paz, a harmonia, a tolerância, a inclusão e o diálogo promovem uma sociedade mais consciente, pacífica, livre e feliz.

“Que todos os seres sejam felizes. Que todos os seres sejam livres. Que todos os seres sejam protegidos. E que todos os seres despertem para a luz da sua natureza.”(adaptação de oração budista)

Luís Vaz

Instrutor de Yoga desde 2016 e praticante desde 2010, tendo realizado o Curso de Professores da Federação Portuguesa de Yoga. Instrutor de Fitness e Personal Trainer (Mestrado em Ciências do Desporto na UTAD) desde 2013 em vários ginásios, espaços vocacionados para o efeito e outdoor. Guia Certificado de Banhos de Floresta (Shinrin-Yoku) pelo Forest Therapy Institute. Atualmente a lecionar Aulas de Yoga e Treino Personalizado Online e Presencial.