Neste ano de 2020, a Humanidade foi desafiada por uma pandemia, a qual trouxe muitos ensinamentos, a começar pela percepção da nossa fragilidade diante do desconhecido. Fomos confrontados com a necessidade de perceber que a união das nossas capacidades nos permite lidar com momentos verdadeiramente desafiantes, quer ao nível pessoal e familiar, como ao nível social, em que a compreensão e a solidariedade são fundamentais para nos mantermos em equilíbrio mental, físico e emocional.

Os diversos efeitos psicológicos provenientes das restrições sociais dificultaram a busca pelo equilíbrio entre a razão e a emoção, fundamentais para a saúde mental. Por outro lado, observamos esta incrível capacidade de nos adaptarmos a momentos para lá da nossa compreensão e de nos tornarmos verdadeiros guardiões da nossa saúde emocional.

Neste momento, muitos de nós sentimos a necessidade imperativa de reconectar com a força interna, de olhar “para dentro” – propiciando o sentimento de empatia.  A união e solidariedade com os outros, permitiu-nos darmos as mãos e dividirmos a caminhada para partilhar AMOR. E é nesta trajectória que o verdadeiro sentido de união expresso pela filosofia do Yoga se apresenta, ainda mais potente, como conexão resiliente capaz de equilibrar a força da existência (raiz), o coração e a mente.

O Yoga é uma prática holística que nos possibilita uma atitude de investigação introspectiva do ser, que nos ensina como os padrões de pensamento deixam marcas em todas as células e que nos apresenta técnicas para unir o corpo físico, mental e emocional. Deste modo desenvolvemos a habilidade de sermos mais flexíveis ao nível psico-emocional, alcançando o equilíbrio, a confiança e o poder pessoal para realidades adversas, como a que atravessamos.

Durante um processo de mergulhar em qualquer ferramenta de autoconhecimento, tomamos a consciência de que a procura pela felicidade e satisfação pode efetivamente sair do plano da utopia e ser verdadeiramente alcançada se nos permitirmos trabalhar o desapego (Vairāgya), libertando-nos das nossas próprias teias, vendo as coisas como elas são.  A transformação e o reconhecimento do indivíduo que desejarmos ser começa com a nossa atitude de resiliência perante a adversidade.

A pratica regular do Yoga, como actividade corpo-mente, atua como fonte terapêutica, ampliando a capacidade de auto-análise e autocuidado, além de uma profunda conexão com a nossa essência e, consequente, com o Amor – afim de reverbera-lo para as nossas relações familiares e para as relações com a “tribo” que escolhemos. Nesta caminhada será necessário cultivarmos uma atitude de consciência pelo modo como nutrimos nossas raízes.

A jornada do Gaya Yoga Soul iniciou-se em fevereiro de 2020, abrindo as portas do seu acolhedor estúdio para aulas em grupo, pouco antes do início da quarentena e de toda uma exigência social de afastamento e recolhimento.

Durante os meses de isolamento, as partilhas de yoga e meditação realizadas à distância (via online) supriram, de alguma forma, a necessidade do encontro e da prática física dos yogis do estúdio e, para nossa surpresa, abraçaram novos alunos. Abrimos o círculo de práticas a novos rostos e em alguns casos, a pessoas que nunca realizaram uma prática de yoga ou meditação.

Como gestora de um espaço recém lançado, que foi recentemente ampliado, observei não apenas o meu desejo de evolução face a um cenário de caos mundial, mas também a vontade dos alunos, numa busca crescente pela desconstrução de suas rotinas tóxicas, almejando um prática que suprisse a evolução física e espiritual.

Desejamos juntos evoluir, desejamos juntos crescer, sem carregar a sensação de sermos “forçados” pelo instinto natural de sobrevivência, mas com a premissa de uma conexão que ocorre quando trabalhamos a resiliência com “Amor”. A cada dia de prática, a cada partilha, projectamos intenções, pensamentos, palavras e acções, que desejamos vivenciar para nós mesmos, para os nossos familiares e amigos e para todos ao nosso redor.

Nem sempre é fácil reconhecer o domínio que temos para (re) fazer o nosso mundo nem ter a força necessária para renascer. É preciso auto compreensão, ou seja, consciencialização das próprias limitações e perseverança na superação dos medos e inseguranças. Dessa forma, caminha-se para o sentido de libertação, que só acontece quando se conhece a verdade (a sua própria verdade). Afinal este é o objectivo máximo da prática de Yoga – moksa.

Se você quer transformar o mundo, experimente primeiro promover o seu aperfeiçoamento pessoal e realizar inovações no seu próprio interior. Estas atitudes se reflectem em mudanças positivas no seu ambiente familiar. Deste ponto em diante, as mudanças se expandirão em proporções cada vez maiores. Tudo o que fazemos produz efeito, causa algum impacto.
(Dalai Lama)

Mas como alcançar a resiliência através do Yoga? A resposta pode não ser simples. Porém, pode estar dentro de cada praticante ou, simplesmente, em cada partilha, quando deixamos de racionalizar e levamos a atenção da mente para o nosso coração.

A conexão mente-corpo constitui uma parte fundamental da autoconsciência, que ajuda a transformar o conhecimento em acção, pois no momento da execução de cada ásana (postura psico-física) o corpo passa a meditar.  Neste momento, é possível observar com mais clareza as emoções e a fazer uma leitura mais clara dos sentimentos, gerindo mais tranquilamente o dia a dia, sem a somatizar as emoções.

É um consenso entre praticantes regulares e recentes a constatação da diminuição dos níveis de stress e ansiedade através dos exercícios de respiração, os pranayamas. Por exemplo, desde o início da pandemia, alunos que iniciaram a sua prática apenas uma vez por semana, acabaram por aumentar a regularidade para duas ou até três vezes. Os relatos se deram, sobretudo, pela percepção dos benefícios físicos e mentais obtidos.

O corpo é influenciado pela mente, pelo “coração”, pois todas as emoções nefastas ao equilíbrio psíquico-emocional, podem interferir de um modo negativo na imunidade de cada ser. O nosso fluxo mental é influenciado pelos processos químicos e hormonais do nosso corpo físico. A prática regular do yoga aumenta os níveis de antioxidantes que auxiliam no combate às doenças do corpo. Ou seja, o trabalho simultâneo do corpo e da mente foi fundamental durante o período de isolamento social (por vezes obrigatório), proporcionando aos praticantes, recentes ou não, a vivência da combinação de ásanas, pranayamas e meditações com uma conduta otimista no dia a dia, consigo e com outro. Essa jornada interior influenciou directamente o modo como cada aluno “sobreviveu/sobrevive” aos desafios do presente.

Yoga é meditação em movimento e permanência, e ambas estão interligadas. A realização de posturas do Yoga, para além de ser uma ajuda para o praticante aprender a concentrar-se, a relaxar e a observar o seu ser como um todo, permite que o corpo físico se torne mais flexível e mais resistente ao desconforto na permanência, não apenas na prática da meditação, como em algumas atividades do dia a dia. A execução dos ásanas proporciona uma maior harmonia na relação corpo e mente, assim como uma maior entrega ao momento de recolhimento, do mergulho na própria essência de um modo fluido, agradável e satisfatório.

Talvez todos nós, em algum momento, já experienciamos o sentimento de estarmos sós perante o desafio para mais tarde percebermos que essa solidão tinha outros corações e rostos a vivenciar o mesmo. Talvez a nossa história pessoal já tenha ajudado um amigo ou familiar, ou até mesmo um colega de trabalho. Há um poder para além do mensurável nas mãos que se unem, nos laços que criamos como seres gregários que somos.

Não, talvez nunca tenhamos estado sós quando o caminho era incerto. Talvez AGORA não estejamos sós pois quando um se eleva, todos nos elevamos.  Não será esse é o verdadeiro caminho da evolução?…

Sandra Natário Miranda

Professora de Yoga e fundadora do espaço Gaya Yoga Soul onde leciona juntamente com Sandra Marques e Davi de Carvalho.